12 de junho de 2011

Textos antigos - Memória - 02/02/2009

02/02/2009
Memória
A memória esgotou-se. Foi este fim-de-semana. A morte da Ana foi esquecida por toda a gente. O que resta da sua imagem, dos seus passos, as suas impressões digitais, deixadas nas coisas que usava, nos computadores, nas plantas de casa, as suas coisas pessoais, tudo isso vai-se esgotando lentamente.
Mas a memória dela, a memória do que passou, do que sofreu, essa memória esgotou-se. As pessoas riem-se e divertem-se alheadas. Passou, esqueceram. A Ana morreu e já não está aqui ao meu lado. E eu tenho tantas saudades dela.
E custa-me tanto estar assim, pensar mal dos outros, mas não posso deixar de pensar que estão a ser injustos, estão a ser maus, estão a esquecer uma das pessoas que era importante, que me amou, que cuidou de mim.
Faz toda a gente de conta que já passou tudo, que não aconteceu nada. Falam comigo como se nada fosse. Eu falo com elas como se nada fosse. Sou um cobarde, um falso, um insensível vazio. Sou um hipócrita, sou um fraco. Deixo que me falem assim como se nada fosse e como se tudo estivesse bem. Faço de conta, digo que sim, rio-me. Devia ser proibido rir assim. Que falta de respeito. Que horror.
Sempre que falam assim comigo devia gritar-lhes que a Ana morreu. Devia bater-lhes, devia dizer-lhes para terem respeito pela memória dela. Não me ligam, não sabem nada de mim, não se lembram da Ana. Não me respeitam, e eu deixo que não me respeitem.
Preciso de tirar tempo. Preciso de me encontrar. Preciso de me fechar num sítio escuro e chorar, até redimir este meu comportamento. Preciso de sentir que estou triste pela morte da Ana, que a respeito, que a desejo, que tenho saudades dela.
Preciso de fazer as pazes com ela. Preciso de falar com ela e de lhe pedir desculpa.
Preciso dela. Preciso de ti Ana. Meu amor.

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