29 de junho de 2011

Morte

Ana.
Hoje falou-se da morte à mesa de almoço.
Falou-se que a morte nos transcende, e das experiências que vimos os outros viver.
Eu não falei. Falou-se, mas eu não falei.
Apenas falei para dentro e pensei em ti, nos meses que sofreste (sofreste anos, mas nos últimos meses sofreste seriamente, desmesuradamente, intensamente e sem descanso), na última noite em que te vi com vida, na forma como a noticia me foi dada, no sentimento de solidão que tomou conta de mim, da sensação de anestesia, de que nada estava a ser feito porque nada podia ser feito, que tudo estava agora certo estando tudo errado, que não ia sair dali contigo, que nunca mais te ia ver, que nunca mas te ia poder consolar, apoiar, acompanhar.
Lembrei-me de sentir isso tudo, ouvindo os outros falar da morte de um actor jovem, que morreu num acidente de automóvel esta semana, da forma como viram outras pessoas reagir à noticia da morte dos seus queridos e próximos, da inevitabilidade, incontornável, da morte.
Fez-me sentir mal este sentimento. Como que senti de novo o desrespeito pela tua memória. É um sentimento estúpido bem sei, mas por vezes sinto um aperto, como que um desgaste, porque ouço falar e penso..... eles nem imaginam o que estão a dizer, eles nem imaginam o que eu sei e vivi. E o que me faz sentir mal, é essa sensação de que a responsabilidade de eles não saberem é minha. Percebes? Faz-me pensar se estou a viver bem a minha vida. Am I living it right?
Calei-me.... a tempo. Não o tempo todo, mas calei-me. Como que a pensar que não queria estar ali, não queria que ninguém se lembrasse de mim. Calei-me e senti isso tudo e lutei contra isso. Mas não esqueci. Nem deixei de sentir. Am I living it right?
Beijo
Sapo

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