Ana
Hoje, por coincidência e oportunidade sozinho, passei na nossa rua, na rua da nossa antiga casa.
Lembrei-me, como é natural, de ti. Lembrei-me dos muitos dias de angústia que passei, quando saía de casa e procurava lidar com deixar-te sozinha a dormir, na ressaca da quimioterapia.
Lembrei-me das múltiplas fases, das diversas vezes, dos 12 anos que passaram desde a primeira vez.
Voltei aquele sentimento de que podia ter feito melhor, mas também ao sentimento de que fiz como sabia, podia e conseguia.
Lembrei-me em particular de dois cenários. Sair de casa com ele bebé, levá-lo ao infantário, cuidar dele à noite e de manhã, contigo deitada na cama dias seguidos pelo desgaste da químio, derrotada, inchada, triste, cansada, desgastada e sozinha.
Lembrei-me também da fase em que saía de casa para passear o cão, o nosso louco e esgaseado cão, com uma energia monstra, e que acabou por te tirar toda a paciência.... coitado veio num mau momento.....
Lembrei-me de o ir passear e sentir pequenos momentos de paz, pequenos momentos em que pensava - Isto podia ser pior, isto podia ser o fim do mundo, podia ser a bebé doente também, podia ser mais grave, mais feio........ mas mesmo assim é tão mau, tão triste, tão sozinho......
Voltava para casa e encontrava-te invariavelmente a 200, a cozinhar, a fazer coisas, a opinar, a decidir, a combinar fenómenos que iam acontecer :-) Amei, sempre amei, a tua energia. Eras uma mulher de ferro. É assim que te recordo.
Beijo Ana.
Sapo.
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