Hoje por momentos imaginei-me num Natal de outros tempos e tentei extrapolar o Natal de hoje.
Não é difícil imaginar. Até pensei nos irmãos que ele teria. Nos bebés novos que circulariam por aqui, com as suas chuchas as suas birras as suas manhas os seus risos, e aquele irradiar de alegria de que só os bebés são capazes em determinados momentos.
Imaginei-te severa como sempre, e extremamente organizada como sempre. Com tudo num brinco e bem pensado. Pensei que estarias mais velha, com mais cabelos brancos que esconderias com aquele jeito que tinhas para tratar o teu cabelo. O teu lindo cabelo preto, liso e longo.
Imaginei assim o que seria um Natal contigo cá, se o percurso tivesse sido diferente.
Com certeza eu também seria diferente. Com certeza que algumas coisas não funcionariam bem, e em outras poderia ser melhor. Mas sou capaz de imaginar a nossa cumplicidade. O nosso carinho. As nossas birras e zangas. O teu mau feitio e a minha hipersensibilidade.
E imagino outra coisa.
Imagino a presença de todos em muitos Natais seguidos. Natais em que estavam todos cá, e eu estava, nós estávamos, seguros e tranquilos, dentro desse espaço.
Mesmo isso pouco existiu. E hoje é impossível. Sem ti e sem o meu Pai.
Seriamos todos diferentes, e se lá estivéssemos provavelmente não valorizávamos o que tínhamos. Mas é assim a nossa condição. Sempre à procura de algo, sem compreender bem o que se tem a cada momento.
Imaginei-te, por fim, como se vê alguém numa fotografia. Tranquila e estática a olhar para mim. Com um sorriso quente e suave, como quanto te conhecia e sorrias para mim com sinceridade.
Beijo.