Hoje morreu a Maria José Nogueira Pinto. Morreu com um cancro.
Gostava imenso dela. Tu também. Lembro-me de a vermos falar e gostarmos da sua convicção, da determinação, da graça natural com que falava, com o rosto marcado, afirmando-se tranquila. Mesmo com a distância política, mesmo com a natural desconfiança, e mesmo com o cansaço com que ouvíamos os políticos falar.
Recordo-me de uma frase dela, de há muitos anos, que me lembro perfeitamente de comentar e discutir contigo.
Era sobre o poder. Dizia a Maria José algo assim -
que não tinha medo do poder, que gostava do poder, no sentido em que o poder lhe permitia fazer as coisas acontecer, lhe permitia fazer coisas pelos outros, fazer bem - algo assim por estas linhas. Lembro-me dessa frase e de como gostei de a ouvir, e simultaneamente de como me fez sentir pequeno.
Morreu de cancro. Elogiaram-se muitos dos atributos da Maria José, hoje nos jornais. Mas um em particular me fez pensar. A coragem. Morreu de cancro mas trabalhou até ao fim, sem dizer que não, ou que desistia. Morreu de cancro mas esforçou-se por estar presente, por estar lá nas suas funções até não poder mais.
E isso fez-me lembrar de ti.
Morreu com 59 anos, tu morreste com 41.
Morreste e estavas a trabalhar na semana anterior. Quando morreste a empresa onde trabalhavas elogiou o facto de te manteres em funções até ao limite das tuas forças.
Morreste mas lidaste com tudo com coragem. A mesma de que estava munida a Maria José. Tu morreste Ana, e tinhas a mesma fibra desta senhora. E essas coisas que li sobre ela, fizeram-me pensar nessa tua coragem, nessa tua determinação, e mesmo na forma como encaraste a morte e o cancro, que acabou por levar as duas.
É sereno este meu sentimento, mas é simultaneamente difícil de expressar por completo. Gostava que estivesses aqui para falarmos sobre isso. Penso que elogiarias de facto a determinação e a coragem. A mesma determinação e coragem, que eu elogio em ti.