30 de abril de 2013

Trabalho


Sentado num canto da sala, numa cadeira puída e velha, suja com manchas de café, ouvia com uma crescente distância a conversa que se desenrolava. Tudo muito vago, muito circunstancial. Como é frequente nestas ocasiões, há quem queira ter protagonismo quando chega a hora das coisas acontecerem. Perdi essa vontade com o tempo. Tudo me soa cada vez mais falso. Por vezes sentia-me obrigado a falar para não deixar de dizer algo. Agora já nem isso. Já nada me ilude, e a solenidade aparente destes momentos, esbarra sempre com força na verdade nua e crua de que a importância das coisas é relativa.

Em quantas reuniões destes estive, sentado, cansado, convencido de que o que fazia era importante, enquanto tu sozinha em casa lutavas para conseguir engolir os teus medicamentos. Quantas vezes saí de casa com vontade de me embrenhar no trabalho para me abstrair um pouco do teu sofrimento. Quantas vezes me arrependi e lutei angustiado contra e a favor desse sentimento.

E lá vão eles falando imenso. Dizem muitas coisas, e na injustiça final esquecem quem trabalha mesmo, e quem sofre mesmo para que as coisas aconteçam. Na verdade, quantas coisas acontecem porque alguém quer e faz, ao inverso de alguém querer e dizer apenas. Falam muito. Fico um pouco catatónico nestas alturas. Já sem paciência. E acresce, lembro-me invariavelmente de ti e de inúmeras vezes em que te contava as minhas frustrações do trabalho, como se fossem importantes. A ti, que lutavas para manter viva a tua cara sofrida e alterada pelos anos de quimioterapia, operações, desfigurações que lentamente derrubaram a tua vontade, até te cansarem definitivamente naquela cama de hospital, numa noite fria de Dezembro. Queria tanto, mas tanto, poder ainda hoje depois deste tempo todo, aliviar o teu sofrimento.
Mas não sei como. Nunca soube ou saberei como. Beijos.

22 de abril de 2013

Unmoving

Have patience. Wait until the mud settles and the water is clear. Remain unmoving until right action arises by itself.
-- Lao Tzu

19 de abril de 2013

Dezanove de Abril

O tempo passa mas há marcas que não desaparecem. Arrependimentos, frustrações, raiva pela forma como as coisas aconteceram e pela falta de discernimento para que acontecessem de outra forma. Uma dificuldade tremenda em estar em paz, fazer tréguas com o passado.

Ainda há dias sonhei contigo. Estavas doente outra vez. Já tinha sonhado contigo bem, bonita e feliz como quando te conheci, mas desta vez voltei a sonhar contigo doente. Com o cabelo estragado, um boné na cabeça, inchada dos tratamentos, doente e triste, num sofrimento lento, desgastante, incompreensível para quem olha de fora.

E o teu filho tira-me daí. Acorda de manhã zangado por ter de ir para a escola. Faço duas piscinas logo de manhã para o ir levar e voltar para casa, e fico com uma ligeira sensação de que fiz alguma coisa boa. Que no meio de tudo, algo de bom resultou. Tenho uma ligeira sensação de paz, um ligeiro aliviar da dor, e por uns instantes, apenas uns instantes logo apagados, uma ligeira tranquilidade aparente com a vida, com o que acontece e com o que aconteceu.

Descanso sentado no banco da cozinha, e bebo um café. Nesta cozinha que já não é a tua, que já não conheceste, e esse sentimento, basta esse..... faz-me regressar às avaliações se tudo está bem e correcto.

Logo à tarde vou de novo buscar o teu filho. Trago o rapaz para os treinos. Como gostarias de o ver. Como querias tanto vê-lo crescer. É uma pena.
Uma ligeira tristeza neste dia diferente. Hoje era um dia especial para nós.
Desculpa. Já passa. Logo vou ter com ele, e por ele, tudo passa. 
Beijo. Saudade.

3 de abril de 2013

Mais Feliz

O nosso amor não vai parar de rolar
De fugir e seguir como um rio
Como uma pedra que divide um rio
Me diga coisas bonitas

O nosso amor não vai olhar para trás
Desencantar, nem ser tema de livro
A vida inteira eu quis um verso simples
P'ra transformar o que eu digo

Rimas fáceis, calafrios
Fure o dedo, faz um pacto comigo
Num segundo teu no meu
Por um segundo mais feliz

-- Adriana Calcanhotto