Sentado num canto da sala, numa cadeira puída e velha, suja
com manchas de café, ouvia com uma crescente distância a conversa que se
desenrolava. Tudo muito vago, muito circunstancial. Como é frequente nestas
ocasiões, há quem queira ter protagonismo quando chega a hora das coisas
acontecerem. Perdi essa vontade com o tempo. Tudo me soa cada vez mais falso.
Por vezes sentia-me obrigado a falar para não deixar de dizer algo. Agora já
nem isso. Já nada me ilude, e a solenidade aparente destes momentos, esbarra sempre
com força na verdade nua e crua de que a importância das coisas é relativa.
Em quantas reuniões destes estive, sentado, cansado,
convencido de que o que fazia era importante, enquanto tu sozinha em casa
lutavas para conseguir engolir os teus medicamentos. Quantas vezes saí de casa
com vontade de me embrenhar no trabalho para me abstrair um pouco do teu
sofrimento. Quantas vezes me arrependi e lutei angustiado contra e a favor
desse sentimento.
E lá vão eles falando imenso. Dizem muitas coisas, e na
injustiça final esquecem quem trabalha mesmo, e quem sofre mesmo para que as
coisas aconteçam. Na verdade, quantas coisas acontecem porque alguém quer e
faz, ao inverso de alguém querer e dizer apenas. Falam muito. Fico um pouco
catatónico nestas alturas. Já sem paciência. E acresce, lembro-me invariavelmente
de ti e de inúmeras vezes em que te contava as minhas frustrações do trabalho,
como se fossem importantes. A ti, que lutavas para manter viva a tua cara sofrida
e alterada pelos anos de quimioterapia, operações, desfigurações que lentamente
derrubaram a tua vontade, até te cansarem definitivamente naquela cama de
hospital, numa noite fria de Dezembro. Queria tanto, mas tanto, poder ainda
hoje depois deste tempo todo, aliviar o teu sofrimento.
Mas não sei como. Nunca soube ou saberei como. Beijos.
Mas não sei como. Nunca soube ou saberei como. Beijos.
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