Se eu morresse agora, gostava que fosse de uma forma tranquila. Quem não desejará isso?
Gostava do meu último sentimento ser de missão cumprida, de ter deixado para trás algo de bom, de melhor, na cabeça e nas mãos do nosso filho. Gostava de lhe ter deixado alguns sentimentos válidos e que lhe permitam ter uma vida calma e tranquila, e sobretudo uma vida melhor do que a minha, e melhor para os que o rodeiam. Esse sentimentos, não os sei expressar todos, mas alguns ocorrem-me com frequência. Coisas que lhe vou tentando dizer, ou insinuar, como - Que a vida é muito comprida, e que nos acontece muita coisa ao longo dela. - Que a maioria das coisas que nos acontece é inesperada, por muitos planos que se façam e desejos que se tenha. - Que o nosso objectivo é sair em paz, connosco e com o mundo.
Não estou ainda pronto para sair. E se saísse agora não saía em paz. Mas hoje tenho uma certeza que dantes não tinha. É que um dia, se lá chegar, vou sentir essa paz e vou sentir que posso sair. Só que hoje ainda não é esse dia. Tenho ainda coisas para fazer, perceber e encontrar.
Saudades. Beijo.
Ana. Queria tentar perceber o tempo que passou e que continua a passar. Tentar perceber para onde foi tudo o que viveste, tudo o que sentiste, tudo o que fizeste. Tentar perceber o que aconteceu, porque aconteceu assim, como é possível não estares aqui? Se conseguisse, gostava também de guardar algumas memórias para o futuro. Escrever para não esquecer coisas tuas e coisas nossas. Escrever por vezes sem saber muito bem porquê nem para quê, à espera que um dia, algo faça sentido. Beijo. Saudade.
