15 de junho de 2015

Coisas de que gostarias - Miss América 1924


Memória

A memória é uma coisa estranha. Depois de anos a pensar se estava certo ou errado, se fazia bem ou mal, se devia ou não devia fazer as coisas como as fazia.... eis que de repente memórias soltas atravessam o tempo e se implantam no dia de hoje. Isso sempre aconteceu. Talvez não lhes desse importância, como se achasse que faziam parte do todo. Dessa sensação permanente de não saber se estava bem ou errado.No fundo de tentar perceber.
Lá está. Afinal sempre tem uma razão.

Mas agora, essas memórias aparecem como uma coisa desligada e distinta. Uma coisa não relacionada com esse permanente estado de incerteza sobre os meus actos, sobre o que os outros acham dos meus actos, sobre a minha vida e sobre o cansaço de tudo.
Hoje, essas memórias aparecem como sempre, mas eu interpreto-as de forma diferente. São fortes e nítidas, vêm do nada, e por vezes em contextos desligados. Mas vejo-as como memórias que não me cansam nem me fazem arrependimento.
São memórias só.

Ontem, sentado ao lado da minha Mãe, a olhar para os lábios dela, pensava na minha Avó. Como a acompanhei no final da vida e como sentia tristeza por a ver envelhecer. Hoje o mesmo sentimento. Depois essa memória levou a outras, e inevitavelmente a ti. O teu lento sofrimento ao longo de anos, a tua dificuldade crescente no final para viver com dignidade. Os problemas no olho quase cego, no céu da boca, na fala.... e mais forte que isso tudo, a tua permanente tentativa de fazer tudo para recuperar, para ficar melhor, para voltares ao que eras. A tua energia, a tua garra, a tua vontade de viver.
E os abraços que te dava quando já não tinha respostas para ti........ só me apetecia chorar.
E então abraçava-te.