15 de dezembro de 2018

10

10. O número não significa nada. Porquê 10, e não 7? Porquê 10 e não nunca?
Nem que seja inconscientemente, há qualquer coisa no número que faz com que tenha peso e significado, que chame memórias.
Lembro-me de pensar nisso. Que dez seria o número especial. Que dez anos depois de morreres teria um significado qualquer. Não tem. Mas tem.
Dez anos depois o rapaz tem 18 anos. Tem uns magníficos 18 anos, crescidos em cima do sorriso e dos olhos brilhantes do menino que eu levava ao parque depois de te deixar no hospital  A brincadeira, a alegria com que passeava, libertavam-me do sofrimento de te ver sofrer. Ajudavam-me a respirar depois daquelas horas. Depois daquelas horas de impotência e de cheiro de hospital. O passeio com ele e a sua alegria contagiante e inocente, ajudavam-me a sentir de novo um norte e um propósito que por vezes achava não existir. Ia passear com ele e o passeio era como que um momento de paz, uma ligeira cura, um aliviar na dor.
Passaram 10 anos. Muita coisa aconteceu. Muita coisa está a acontecer. Regateamos atenção um do outro, e dos que nos rodeiam. Amamos coisas diferentes e coisa semelhantes.
Passeamos de outra forma.
O menino de sorriso e olhos brilhantes está lá sempre que olho para ele.
Mas ele é outro obviamente. E ainda bem!

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