Uma das tuas lutas era esta. Sempre determinada.
Primeiro a Psicologia, depois a Gestão como recurso por não teres podido continuar na primeira.
Eras completamente determinada e presente com este tema. Sabias o que querias, mesmo sem ter grande apoio ou estímulo. A importância de ter um curso era clara para ti.
Não conseguiste terminar. Mas lembro-me claramente de um dia, a propósito de teres tido um excelente resultado numa prova, e teres concluído uma cadeira difícil, eu te dizer com muita sinceridade que para mim já eras doutora. Ou seja, que eras brilhante na tua determinação e por isso, nessa demonstração ao fazer essa cadeira difícil, tinhas provado ao mundo o teu valor. Não sei se tive um instinto de que não ias concluir o curso, que o cancro não te ia deixar acabar, mas senti necessidade de afirmar a minha confiança em ti e essa tua demonstração ao mundo do teu valor.
Lembro-me bem. Ao principio acho que não percebeste, mas depois ficaste feliz com a minha confiança e o meu elogio.
Regressei.
Tudo isto assim a propósito de eu ter regressado. Enfrentei o meu maior monstro, e tu sabes, de todos os monstros que ainda é possível enfrentar e que ainda não ganharam. O meu maior. O que vai perder ao fim de tantos anos.
Tu sabes o que isso significa. E como é profundo. Talvez saibas como ninguém o que me desgastou ao longo do tempo.
Queria então que soubesses. Porque voltei a enfrentar o monstro. e também por ti. Também com uma recordação boa e forte de ti, Forte pela tua força. Como sempre. Beijos.
Ana. Queria tentar perceber o tempo que passou e que continua a passar. Tentar perceber para onde foi tudo o que viveste, tudo o que sentiste, tudo o que fizeste. Tentar perceber o que aconteceu, porque aconteceu assim, como é possível não estares aqui? Se conseguisse, gostava também de guardar algumas memórias para o futuro. Escrever para não esquecer coisas tuas e coisas nossas. Escrever por vezes sem saber muito bem porquê nem para quê, à espera que um dia, algo faça sentido. Beijo. Saudade.
19 de novembro de 2015
22 de setembro de 2015
48
Seriam hoje.
A saudade hoje é difusa e macia como seda. Do nada, inesperado, surge um reflexo, um sinal, que desencadeia a memória, que desperta a saudade. Essa saudade suave.
É como se tudo estivesse bem, como se fosse quase uma memória boa, excepto o amargo de não estares aqui.
A saudade hoje é difusa e macia como seda. Do nada, inesperado, surge um reflexo, um sinal, que desencadeia a memória, que desperta a saudade. Essa saudade suave.
É como se tudo estivesse bem, como se fosse quase uma memória boa, excepto o amargo de não estares aqui.
15 de junho de 2015
Memória
A memória é uma coisa estranha. Depois de anos a pensar se estava certo ou errado, se fazia bem ou mal, se devia ou não devia fazer as coisas como as fazia.... eis que de repente memórias soltas atravessam o tempo e se implantam no dia de hoje. Isso sempre aconteceu. Talvez não lhes desse importância, como se achasse que faziam parte do todo. Dessa sensação permanente de não saber se estava bem ou errado.No fundo de tentar perceber.
Lá está. Afinal sempre tem uma razão.
Mas agora, essas memórias aparecem como uma coisa desligada e distinta. Uma coisa não relacionada com esse permanente estado de incerteza sobre os meus actos, sobre o que os outros acham dos meus actos, sobre a minha vida e sobre o cansaço de tudo.
Hoje, essas memórias aparecem como sempre, mas eu interpreto-as de forma diferente. São fortes e nítidas, vêm do nada, e por vezes em contextos desligados. Mas vejo-as como memórias que não me cansam nem me fazem arrependimento.
São memórias só.
Ontem, sentado ao lado da minha Mãe, a olhar para os lábios dela, pensava na minha Avó. Como a acompanhei no final da vida e como sentia tristeza por a ver envelhecer. Hoje o mesmo sentimento. Depois essa memória levou a outras, e inevitavelmente a ti. O teu lento sofrimento ao longo de anos, a tua dificuldade crescente no final para viver com dignidade. Os problemas no olho quase cego, no céu da boca, na fala.... e mais forte que isso tudo, a tua permanente tentativa de fazer tudo para recuperar, para ficar melhor, para voltares ao que eras. A tua energia, a tua garra, a tua vontade de viver.
E os abraços que te dava quando já não tinha respostas para ti........ só me apetecia chorar.
E então abraçava-te.
Lá está. Afinal sempre tem uma razão.
Mas agora, essas memórias aparecem como uma coisa desligada e distinta. Uma coisa não relacionada com esse permanente estado de incerteza sobre os meus actos, sobre o que os outros acham dos meus actos, sobre a minha vida e sobre o cansaço de tudo.
Hoje, essas memórias aparecem como sempre, mas eu interpreto-as de forma diferente. São fortes e nítidas, vêm do nada, e por vezes em contextos desligados. Mas vejo-as como memórias que não me cansam nem me fazem arrependimento.
São memórias só.
Ontem, sentado ao lado da minha Mãe, a olhar para os lábios dela, pensava na minha Avó. Como a acompanhei no final da vida e como sentia tristeza por a ver envelhecer. Hoje o mesmo sentimento. Depois essa memória levou a outras, e inevitavelmente a ti. O teu lento sofrimento ao longo de anos, a tua dificuldade crescente no final para viver com dignidade. Os problemas no olho quase cego, no céu da boca, na fala.... e mais forte que isso tudo, a tua permanente tentativa de fazer tudo para recuperar, para ficar melhor, para voltares ao que eras. A tua energia, a tua garra, a tua vontade de viver.
E os abraços que te dava quando já não tinha respostas para ti........ só me apetecia chorar.
E então abraçava-te.
6 de maio de 2015
Família
No regresso de casa dos Tios e Primos........................... "Pai. Gostava de ter uma família."
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