31 de dezembro de 2011

Sem reacção

Por incrível que pareça, hoje, mais de três anos depois de desapareceres daqui, de junto de nós, encontrei um antigo colega teu que me falou de ti com um sentimento e uma saudade surpreendente. Não esperava, e fiquei desarmado, sem reacção.
Valeram os elogios ao nosso rapaz e à sua postura e alegria.
Mas foi desgastante e cansativo. Fiquei com a sensação de que tinha chorado várias horas seguidas. Sem vontade de falar, com a garganta seca, com os olhos pesados, com vontade de dormir e deixar o tempo correr.
E no meio disso tudo, a confirmação de que mais uma vez me parece que ele está bem. Algo com que estavas tranquila, e com o qual eu fico tranquilo também, por teres tido razão nessa tua visão das coisas.
Beijo.

30 de dezembro de 2011

2012

Para procurar acabar o melhor possível este ano, e olhar para 2012 com outra determinação (seguindo um dos três votos (as resoluções, como dissemos os dois) discutidos com o rapaz para o próximo ano), uma foto de que com certeza gostarias muito. O gordo do urso polar a entrar de chapa na água. Beijos. Saudade. Descansa. Nós vamos continuar aqui, da melhor forma que soubermos.


29 de dezembro de 2011

Crescente

Ana.
Não sei se pelas férias que estou forçadamente a gozar agora, se pelos dias de sol magnífico, se pela presença cada vez mais divertida e companheira dele e dos seus amigos, estes dias trouxeram alguma paz.
Com saudades tuas, com saudades do meu Pai, em especial nesta altura do ano que tinha tanto significado para ele, mas como alguma paz tranquila e crescente sobre o resto, vou passando estes dias até ao ano que vem. Sempre, mesmo que não querendo, procurando acreditar que o ano de 2012 vai ser um ano de viragem.
Até recordei como identificar a estrela polar. Magnifico :-).
Beijo.

26 de dezembro de 2011

Confucius

A journey of a thousand miles begins with the first step. 
--- Confucius

Frio

Lá fora e cá dentro do peito. 
Por múltiplas razões. 
À espera, e na esperança de voltar a sentir algum calor. 
Beijo.


25 de dezembro de 2011

O que seria

Hoje por momentos imaginei-me num Natal de outros tempos e tentei extrapolar o Natal de hoje.
Não é difícil imaginar. Até pensei nos irmãos que ele teria. Nos bebés novos que circulariam por aqui, com as suas chuchas as suas birras as suas manhas os seus risos, e aquele irradiar de alegria de que só os bebés são capazes em determinados momentos.
Imaginei-te severa como sempre, e extremamente organizada como sempre. Com tudo num brinco e bem pensado. Pensei que estarias mais velha, com mais cabelos brancos que esconderias com aquele jeito que tinhas para tratar o teu cabelo. O teu lindo cabelo preto, liso e longo.
Imaginei assim o que seria um Natal contigo cá, se o percurso tivesse sido diferente.
Com certeza eu também seria diferente. Com certeza que algumas coisas não funcionariam bem, e em outras poderia ser melhor. Mas sou capaz de imaginar a nossa cumplicidade. O nosso carinho. As nossas birras e zangas. O teu mau feitio e a minha hipersensibilidade.
E imagino outra coisa.
Imagino a presença de todos em muitos Natais seguidos. Natais em que estavam todos cá, e eu estava, nós estávamos, seguros e tranquilos, dentro desse espaço.
Mesmo isso pouco existiu. E hoje é impossível. Sem ti e sem o meu Pai.
Seriamos todos diferentes, e se lá estivéssemos provavelmente não valorizávamos o que tínhamos. Mas é assim a nossa condição. Sempre à procura de algo, sem compreender bem o que se tem a cada momento.
Imaginei-te, por fim, como se vê alguém numa fotografia. Tranquila e estática a olhar para mim. Com um sorriso quente e suave, como quanto te conhecia e sorrias para mim com sinceridade.
Beijo.

21 de dezembro de 2011

Kilauea

Mais do que o habitual sentimento de que gostarias, olhei para esta foto e lembrei-me de ti e da tua força. Da tua natureza.
Depois ao ler a legenda, mais sentido fez. O Kilauea, é um vulcão que está no meu imaginário desde que me lembro, e por razões talvez um pouco infantis (lá está)... E é um nome sonoro e bonito. Razões válidas, no fundo.
Talvez um bom destino. Um bom objectivo para visitar um dia. Logo para mim que nunca tive desses sonhos. E talvez devesse ter tido mais. Contigo.
É assim que vejo agora. Beijo.

20 de dezembro de 2011

Wittgenstein

Whereof one cannot speak, thereof one must be silent.
--- Ludwig Wittgenstein

Texto escrito à mão - 13/12/2009

What now? How many more surprises?
Um ano depois da Ana ter morrido, ter desaparecido daqui, de nós, com a sua dor, o seu sofrimento, a sua angustia, a sua tristeza, a vontade de ficar e de viver. Tudo perdido numa cama fria de um hospital frio. Abandonada por todos e por tudo.

Uma das coisas que me deixou tranquilo no processo da morte da Ana, no seu desaparecimento, foi a sensação, a certeza, de que estava tranquila com o nosso filho. Não falou nele, falei eu. Sempre. Ela tranquila a ouvir.
Mas nem tudo foi assim.
Uma das coisas que mais me entristece, ainda hoje, foi o isolamento dela. Os pedidos de uma 7up fresquinha. O olho dela já cego, já sem ver. A dor. O isolamento.
Mas pelo menos com ele, sinto que ela ficou bem.
Ultimamente tenho um sentimento ambíguo em relação a tudo. O sentimento de que se a Ana estivesse aqui, nada de mau teria acontecido. Seguramente que eu não estava bem, não estava tranquilo. Nunca estive, nunca fui assim. Mas estava acompanhado, mas estava bem. Ela era tudo. Todo o foco era ela. Não havia espaço para mais nada. Nada de mau teria acontecido.

Escrito no parque da Serafina em 13/12/2009.

19 de dezembro de 2011

7 de dezembro de 2011

3 de dezembro de 2011

If You Love, Love Openly

Twenty monks and one nun, who was named Eshun, were practicing meditation with a certain Zen master.

Eshun was very pretty even though her head was shaved and her dress plain. Several monks secretly fell in love with her. One of them wrote her a love letter, insisting upon a private meeting.
Eshun did not reply.

The following day the master gave a lecture to the group, and when it was over, Eshun arose. Addressing the one who had written her, she said: "If you really love me so much, come and embrace me now."

2 de dezembro de 2011

1 de dezembro de 2011

Torneio

Terias gostado de o ver. No primeiro torneio de ténis. Ainda começou a jogar contigo cá, perto dele. Talvez sem as mesmas motivações, seguramente sem o entusiasmo de agora, mas chegaste a ver e saber que jogava.
Gostavas certamente de o ver agora.
A vibrar, como os outros, com o torneio que se aproximava. A vibrar durante, independentemente dos resultados e do que conseguia fazer. Foi excelente também por isso.
Bem acompanhado, bem enquadrado. Tranquilo e aéreo como é o seu género.
Durante o torneio, a Mãe de outro jogador disse-me. - Acho o seu filho muito adulto, muito tranquilo e seguro.
Fiquei sem saber bem o que dizer. Respondi - Teve de crescer um pouco à força.
- Pelo que aconteceu com a Mãe?
- Sim. - Disse eu. - Tenho por vezes receio disso. Que seja um crescimento rápido de mais.
- Ele parece-me bem. Num sentido positivo. - Reforçou ela.
Fiquei a pensar se ela saberia que a Mãe não estava cá. Que o que se tinha passado era mais do que a Mãe estar doente. Fiquei sem saber, por não querer continuar a conversa assim, sem perceber para onde ia. Por ter medo de ser lamechas. Por não querer parecer que procurava um ombro em alguém desconhecido. Enfim..... ficou a conversa por ali.
Mas gostarias com certeza de ouvir alguém dizer assim, com tranquilidade, bem da personalidade do teu rapaz. Fiquei contente por isso. E triste e amargo por não estares. O amargo de sempre, que não é novidade.

28 de novembro de 2011

PPF

The reason people find it so hard to be happy is that they always see the past better than it was, the present worse than it is, and the future less resolved than it will be. 
--- Marcel Pagnol

24 de novembro de 2011

Coisas de que gostarias


Sem

[...]
Ainda hoje me senti assim.


<Desculpa, este texto não pertencia aqui. Aqui não tem de ser tanto sobre mim, mas sim sobre ti, nós e ele.>

23 de novembro de 2011

Saudades - 27/03/2009

- Pai, tenho muitas saudades da Mamã. 
- Eu também tenho......
- Vamos ter de aguentar, até ao resto das nossas vidas.
- Sim, não há nada que nós possamos fazer para mudar o que aconteceu. Mas podemos pensar nas coisas boas que fizemos e nos momentos bons que vivemos.
- Pois é.
- Temos de pensar que a Mamã está num sitio bom e que está bem.
- Sim Pai, ela está a descansar.

21 de novembro de 2011

Coisas de que gostarias

Bebés - 11/06/2009

- Pai.... Os bebés quando nascem já trazem coisas na cabeça? Ideias e assim?
- Não. Não trazem nada. Mas trazem o mais importante, que é a capacidade para aprender tudo. Percebes?
- Não.
- Quando se nasce não trazemos ideias nem conhecimento. Não sabemos nada. Mas trazemos um cérebro dentro da nossa cabeça. Sabes o que é um cérebro?
- Sim Pai. Nos bebés é assim canotcha.
- Sim, é assim como o próprio bebé. E depois cresce quando o bebé cresce. E aprendemos continuamente, aprendemos sempre ao longo da vida. Portanto os bebés não sabem nada, mas assim que nascem começam a aprender. Percebes?
- Sim.

[...]
- Olha... não é verdade que as cabeças dos bebés não trazem nada. Trazem coisas sim. Por exemplo, quando um bebé tem fome, o que faz?
- Chora.
- Sim, e porquê?
- Hummm… porque tem fome.
- Sim, mas para que serve o choro?
- Não sei…..
- Para chamar à atenção. Não é? Para que a Mãe saiba que ele tem fome e quer mamar. E vês, isso ninguém ensinou ao bebé. Chama-se a isso um instinto, é uma coisa que vem cá dentro, já quando nascemos.
- Já vem dentro do cérebro.
- Isso!

Crazy

"Some people never go crazy. What truly horrible lives they must lead." 
— Charles Bukowski

20 de novembro de 2011

15 de novembro de 2011

Really live

"You have to die a few times before you can really live." 
— Charles Bukowski

9 de novembro de 2011

Voz

Hoje, a tentar sondar se rever os vídeos antigos tinha sido uma boa ideia, numa conversa o mais descontraída possível.
- Eu senti que ficaste um pouco triste por ver os vídeos.
- Sim fiquei um pouco.
- Mas também gostaste ao mesmo tempo, não foi? Foi giro rever-te bebé. E é bom relembrar a Mamã. Ou não é?
- É sim, eu gostei muito. Lembrava-me bem dela, mas da voz não. Pensava que a voz dela era mais forte, mais grossa. E ela tinha uma voz muito querida. Uma voz muito linda.

7 de novembro de 2011

Coisas de que gostarias


Imagens

Hoje vimos uma parte de um video que me pareceu tranquilo. Ele bebé, rechonchudo, a começar a falar, a andar e correr pela casa, bem disposto, feliz.
Estava cheio de medo de voltar a ver os videos, e o inevitável aconteceu.
Às tantas, diz ele;
- A Mamã tinha uma voz tão querida. Já não me lembrava da voz dela.
Ficou triste, pareceu-me. Triste mas também contente por se rever bebé. Triste pela saudade que expressou também, mas contente por saber que os videos existiam.
À noite ao deitar perguntou-me;
- Porque é que gravaram aquelas imagens?
Expliquei, pelas razões óbvias de recordar mais tarde, de ser um momento único. E que se mostrava que era bom.
- Estás bem? Perguntei.
- Sim. Já não me lembrava de voz da Mãe.
- É natural, passou muito tempo.
- Tenho saudades, mas gosto de ver. Disse
- É bom, não é? Eu também tenho saudades, mas gosto de ver. Confirmei eu com sinceridade.
- Também eras mais divertido naquela altura. Eras mais feliz.
- Pois era querido.

4 de novembro de 2011

Coisas de que gostarias


Turtles


Tartarugo

Lembro-me muitas vezes de uma frase tua.
Eu na cadeira do hospital, a respirar vapor à força por uma máscara de plástico, tu lá fora à minha espera.
No antigo hospital de Cascais, velho, obsoleto, cheio de gente, meio desconjuntado e a cheirar éter a léguas.
A sala naquele tom indescritível, entre o branco sujo e o amarelo desmaiado.
Os meus parceiros de tratamento todos velhotes, com um ar acabado, sentados em cadeiras a respirar vapor à força. Eu a pensar - quem é que já respirou por esta máscara que estou a usar....
Um ataque de asma violento. A tua ajuda. A tua companhia.
E depois o teu sms. Estou cá fora à espera do meu tartarugo lindo.....
Nessa noite, senti que me amavas. Só quem ama é capaz de um sentimento desses, depois de todo o stress que eu tinha provocado.
Estou cá fora à espera do meu tartarugo lindo.....
Soube bem. Foi o melhor tratamento que podia receber.
Lembro-me de te falar nisso e de te agradecer.
Obrigado.
Beijo.

Rádio

Hoje num programa da Antena 1....
O adolescente é aquele que tem a convicção de tudo, porque ainda não viveu nada...

2 de novembro de 2011

Coisas de que gostarias


Videos

Videos nossos, antigos.
Houve um tempo em que filmávamos. Houve um tempo em nos fartávamos de fazer isso.
Encontrei ontem de novo a máquina, que quase todos os dias via, mas não queria ver.

Hoje ao rever um pequeno trecho, revisitei a tua voz, a tua presença, o teu rosto.
O nosso bebé pequeno, motivação mais que forte para a termos comprado.
Recuperei a vontade de os ver e de também de filmar.
Fiquei com muito medo, e só lhe falei nisso muito a fugir. Vamos ver como corre. Para mim foi estranho, acho que ainda estou a processar.
Porquê fazer isso? Para doer e marcar, ou para reviver tranquilamente?
E porque não fazer? Por não ter filmado mais, por ter perdido tanto?
E porque não parar de pensar?.....

1 de novembro de 2011

Cansaço

Da tua ausência.
Da minha insegurança com tudo.
Das coisas que não se resolvem.
Do medo de ter feito mal. Medo de falhar. De não estar à altura. De não estar a fazer bem, sobretudo com ele.
Cansaço de não saber o que sou, de não saber ao fim de todo este tempo o que gostava de ser.
Cansaço de ser menos por incapacidade de lutar e perseguir.
De perder.
De suspeitar que há coisas que não se vão resolver. Coisas que nunca estiveram bem e assim nunca vão estar.
Cansaço. Desculpa....

30 de outubro de 2011

Memória

Hoje no carro.... no viaduto de Algés.
Pai, ali em baixo há um McDonalds.
Lembro-me de ter ido lá aos anos da Maria Inês.
Foi a Mamã que me levou. Lembro-me que chegámos muito tarde.....

29 de outubro de 2011

Amor


Festa

Mais um aniversário de uma amiga pequenita, e ele lá no meio.
Juntos desde um ano de idade, lembrou-me a Mãe dela.
- Estive a rever filmagens deles no ATL-- disse-me ela hoje --, quando tinham 4 anitos, ainda filmagens feitas pela sua mulher -- disse-me ela com aquele tom triste de quem de facto sente algo de estranho e desconfortável, mas não tem outra forma de dizer.
Eu sorri o meu sorriso mais imediato e estúpido, como é habitual. E senti vontade de falar àquela gente toda de quem tu eras, de que ele não tem a Mãe presente, que se estivesses ali, tinhas adorado estar na festa, que irias viver a animação com ele, que teríamos com certeza mais um filho, ou dois, uns manos na vida dele que seria uma vida diferente, mais cheia de tudo. Tive vontade de falar, como que para relembrar a tua memória..... e calei-me como é óbvio pelo ridículo de imaginar a situação. Ficou o sentimento. Estranho e triste.

24 de outubro de 2011

Motivação

The palest ink is better than the best memory.
--- Chinese Proverb

21 de outubro de 2011

Coisas de que gostarias


De novo

Esta semana tive momentos como não tinha há muito tempo. Anos? talvez! Momentos de verdadeira paz. De tranquilidade.
Fizeram-me lembrar um sentimento de paz muito antigo, com o rapaz bebé e tu cheia de saúde e vigor. Memórias de um tempo em que me sentia bem comigo, contigo, com ele.
Em que o meu Pai era vivo e conversava tranquilamente com ele sobre tudo e sobre nada.
Em que respiravas saúde e te rias comigo. Felizes. Passeavamos na praia ao Domingo de manhã, mesmo no tempo frio. E sentíamos-nos vivos e tranquilos, fora do stress dos dias. Em que me dizias que me amavas e que gostavas de sentir o meu interesse por ti. Lembro-me dessa frase. Adorei essa frase.
Alguns momentos desta semana fizeram-me lembrar essa altura.
Por uns momentos senti-me bem comigo. De novo. Como há muito tempo não sentia. E depois de muito pensar e tentar interpretar, senti que o que sentia, era que era eu de novo.
Sem ti, mas com ele. Depois de muitos altos e baixos, por ti e mesmo sem ser por ti. Depois de muitas hesitações  tentativas de recompor tudo, e depois raiva e dor, prazer e orgulho logo trocado por angústia, tristeza e desconforto. Tudo isso a que tu és alheia. Sem culpa. Tudo sempre contigo naquele lugar especial.
Senti que nisso tudo, não era eu.
E que nestes momento me senti eu de novo. Como se ali, não fosse eu. Não era eu.

18 de outubro de 2011

És o melhor Pai do mundo

- És o meu Pai preferido! .... mas só porque não tenho tenho outro.
- Ná.... não é verdade. És um Pai impecável.
 :-)

Período de ajustamento


9 de outubro de 2011

8 de outubro de 2011

33%

Ana
Regressas com frequência às conversas que vou tendo. Comigo ou com os outros.
Por vezes tenho um sentimento estranho, por vezes como que devendo evitar falar de ti, outras vezes como necessitando de falar de ti.
Evitando falar do que é difícil e desperta sentimentos estranhos em mim e nos outros, ou manter viva a tua memória e presença.
Penso no que pensam os outros de mim por falar de ti assim com facilidade. No que pensam sobre o que éramos, e sobre a permanência do respeito e saudade. Penso no que imaginam eu sou hoje sem ti, como que se não me fosse permitido outra condição que não a da tristeza e distanciamento. A dor que deveria ter, ou que tenho e não sei mostrar. O medo de que pensem que não te amava.

Talvez deva de facto não pensar, agir apenas pelo impulso, pelo momento, com naturalidade..... se bem que tenha sempre este peso. Talvez deva de facto adoptar a verdade do Randy Pausch - se deixar de pensar no que os outros pensam de si, o seu tempo disponível aumenta em 33%.... porquê 33%?.... acredite em mim, eu sou um cientista!  :-)

Beijo
Sapo

28 de setembro de 2011

Fita-cola

Hoje, no meio dos trabalhos de casa e das invenções com motores e ventoinhas......

- Pai. Ainda bem que há fita-cola!

Objectivo

O objectivo ultimo deste blog, seria o de deixar uma memória o mais fiel e rica possível. Para que ele no futuro tenha onde reler algumas das memórias da Mãe, algumas de que lhe vou falando, outras de que se pode aperceber ou deduzir. Por isso também como um depósito do que o Pai sente, pensa, faz, e vive com ele no dia a dia.
A ideia seria que mais tarde ele venha cá e releia, como eu reli o diário do meu Pai.
No meio de todos aqueles registos houve algo de positivo, que me tranquilizou  depois da sua morte. A sensação de que alguma coisa que não tinha sido falada estava lá, e tinha sido sentida por ele. E isso foi muito bom.
Este objectivo já foi por mim pensado várias vezes. Talvez até já tenha sido escrito. mas por alguma razão não estou em paz com ele.
Queria que fosse positivo, tenho receio que por vezes seja sombrio.
Queria que fosse interessante para ele ler no futuro, com memórias válidas e úteis, e penso que se perde muitas vezes num conjunto de sentimentos pessoais e profundos, anteriores, desconexos da realidade que motivo a criação do blog.
Queria também que fosse lido. E ainda não encontrei formula para garantir que um dia, mais tarde, ele vai ter acesso. De preferência depois de eu morrer e entrar finalmente num processo de paz completo, como aconteceu comigo e com os diários do meu Pai, dos quais sabia a existência mas nunca lia. Por respeito e distância.

26 de setembro de 2011

Coisas de que gostarias


Fotos

Fotografias tuas antigas, das mãos da tua Mãe para mim e para ele. Guardadas com interesse por ele. Tu a andar de triciclo no cimento em frente da casa.
Algumas das fotos apresentavam-te quase como te conheci, como me lembro de ti quando te conheci. Magrinha, doce, bonita. Muito bonita. Com os olhos doces a pele macia. A recordação dos primeiros beijos.
Uma das fotos contigo e ele no teu colo. Belos os dois. Outra nossa, numa casa que não identifiquei, os três apertadinhos num abraço só possível num casal com um bebé de meses. Saudade. Beijo.

22 de setembro de 2011

21 de setembro de 2011

20 de setembro de 2011

Mais adeus

Continuo a percorrer o caminho de te dizer adeus. Cada vez mais suave. Cada vez mais tranquilo.
Sempre com agitação e angústia. Mas seguro de que voltei a percorrer o caminho. O caminho que tinha perdido e que por culpa de ninguém se não minha, deixei de percorrer.
Voltei a esse caminho. Para te dizer mais adeus.
Beijo.

16 de setembro de 2011

Randy Pausch


We don't beat the Reaper by living longer, we beat the Reaper by living well and living fully, for the Reaper will come for all of us. The question is what do we do between the time we are born and the time he shows up. It's too late to do all the things that you're gonna kinda get around to.


-- Randy Pausch

13 de setembro de 2011

Adeus tranquilo


Adeus

Já percebi de onde vem essa sensação de que não te disse adeus. Ou antes que te disse adeus, mas não terminei esse adeus da forma que eu queria.
Vou por isso trabalhar nesse continuar do adeus, mantendo o respeito que sempre quis, por ti.
Foi por esse respeito que te tatuei no meu braço, num gesto de raiva, num movimento de angústia que eu próprio não compreendia. Mas sentia intensamente.
Era essa a expressão que eu não conseguia produzir nessa altura, era essa a angústia que sentia mas não sabia dizer. E foi daí que resultou a tatuagem. No mesmo dia em que chorei no Magnólia como já aqui descrevi.
Estão então cridas as condições para o retomar desse adeus, sem dor, sem medo. Apenas um adeus tranquilo. Sossegado e livre. Sim, um adeus livre. É isso.

12 de setembro de 2011

3 de setembro de 2011

Férias

Outras férias.
Com ele. Sem ti. Penso que de uma forma mais tranquila e segura fomos de férias e estivemos de férias sem grandes sobressaltos. Só no momento em que ficámos mais sozinhos, sem os Tios, ele disse - Isto sem eles não tem graça.... Tentei dar a volta à coisa, e sem grandes stresses pareceu-me que resultou.
É para mim óbvio que se estivesses talvez tudo fosse muito semelhante. Mas se estivesse, a minha cabeça estava noutro estado, e isso também se reflectia com certeza, nele.
Nada a fazer.
Ou antes.
Fazemos o que é possível, e a cada momento o que parece melhor. Não sem uns momentos de desespero e angústia. Dolorosa e geral.

2 de setembro de 2011

22 de agosto de 2011

Barco

Tenho pensado muito no que fomos juntos.
O que aconteceu entre nós, a forma como nos conhecemos, como lidámos com as coisas que iam acontecendo.
Lembro-me das zangas, dos sentimentos destrutivos, de por vezes ficarmos mesmo beras os dois.
Éramos terríveis quando nos pegávamos. E pegámos-nos algumas vezes.
Falando de mim, sou de facto terrível. Resisto a qualquer mudança. Qualquer situação de desconforto, de mudança das rotinas instaladas me faz ficar aflito, e sem por vezes conseguir explicar o que se passa, sem conseguir verbalizar, apenas resisto às propostas que são feitas e estrago todo o ambiente.
Ainda ontem me lembrei de uma cena dessas, o regresso de casa dos teus Pais e a vontade que muitas vezes tinhas e manifestavas de regressar pelo barco. Fazia-me um mal estar tremendo.
Ontem ele lembrou-se. No caminho disse - eu lembro-me de vir por aqui com a Mamã. Quando iamos para o barco....
E eu pus-me a recordar o fenómeno e a tentar perceber porquê. Que raio de razão de facto havia para eu ficar incomodado com as propostas de regressar por essa via. Deixa ver. O tempo de regresso é muito pior. Não faz por isso sentido e eu queria um rápido regresso ao ninho. A viagem é desconfortável. Acarreta um risco acrescido. Pode implicar fazer uma triste figura, porque há regras diferentes e especificas para manobrar, entrar e sair do barco. O risco de fazer má figura existe. Não é uma solução eficaz, nem eficiente para regressar..... e tudo isto, provocava em mim um mal estar, uma recusa. E que estúpido que era.
Se tu gostavas, se ele gostava, se era um momento de descontracção e até de diversão. Porquê não o fazer? Eu deixava-me levar pelo desconforto, e acabava por ficar de fora. Estúpido sim. Como que não vendo o alcance das coisas. Lembro-me até de discutirmos sobre isso, mas também me lembro de atravessarmos algumas vezes. A bem. Com gosto.
Senti-me de fora e agora tudo isso é o que tenho. Mais sobre esse sentimento noutra altura.
E também mais sobre ti em outra oportunidade. Que os defeitos não eram só meus, e sobretudo porque há muitas boas recordações para guardar.
Sobre a travessia.... a repetir um dia destes com ele.
Aprendi. Tenho de estar alerta.

18 de agosto de 2011

Sentimento

Ana
Ultimamente tenho um sentimento estranho. o de que só agora te comecei verdadeiramente a dizer adeus.
Será isso? Ou será o sentimento de que não te disse adeus como deve de ser?
Que não te disse adeus antes, como devia?
Não sei.
Talvez sim. Porque pouco depois de morreres senti um turbilhão tremendo, uma força maior do que eu podia imaginar, a puxar-me para um vórtice, uma confusão generalizada de sentimentos e de vivências, que não me agradavam, que me perseguiam, que me destruíram, que me deram noites sem sono, manhãs brutais de amargura, que me deram um cansaço tremendo.
Um turbilhão de onde, sinto agora, estou finalmente a conseguir sair. A custo. Com dor.
E talvez por estar daí a sair, tenha esse sentimento de que não fiz o que devia, que não deixei para trás o que devia deixar, e que só agora, com alguma tranquilidade, reinicio o processo de te dizer adeus.
Finalmente. Consigo seguir com o processo de te dizer adeus.
Beijo.

17 de agosto de 2011

Coisas de que gostarias


Coisas de que gostarias - Trouble Tree

The Trouble Tree
Author Unknown 
             
The carpenter I hired to help me restore an old farmhouse had just finished a rough first day on the job. A flat tire made him lose an hour of work, his electric saw quit, and now his ancient pickup truck refused to start. While I drove him home, he sat in stony silence.
On arriving, he invited me in to meet his family. As we walked toward the front door, he paused briefly at a small tree, touching the tips of the branches with both hands. When opening the door he underwent an amazing transformation. His tanned face was wreathed in smiles and he hugged his two small children and gave his wife a kiss.
Afterward he walked me to the car. We passed the tree and my curiosity got the better of me. I asked him about what I had seen him do earlier.
"Oh, that's my trouble tree," he replied." I know I can't help having troubles on the job, but one thing's for sure, troubles don't belong in the house with my wife and the children. So I just hang them on the tree every night when I come home. Then in the morning I pick them up again."
He paused. "Funny thing is," he smiled, "when I come out in the morning to pick 'em up, there ain't nearly as many as I remember hanging up the night before."

16 de agosto de 2011

Outro sonho

Sonhei contigo outra vez. É raro nestes dias. E é normal penso eu. Espero eu.....
Estavas com um lenço à cabeça. Um lenço que cobria toda a cabeça e deixava perceber a ausência de cabelo.
Esse lenço que torna pública a doença.
Não a doença bem dizendo, mas o tratamento. É de facto incrível como um tratamento provoca a denuncia de uma doença, e retira assim de uma forma brutal a privacidade de quem o tem de fazer.
Quem faz este tratamento, por o fazer, torna a sua situação pública. O que me parece. no mínimo, violento.
Optaste nas segundas e terceiras rondas por usar perucas. E fizeste bem.
Lembro-me como se fosse hoje a dor que senti quando te rapei o cabelo pela primeira vez. Ainda hoje, são recordações como essa que me fazem inundar os olhos. Rapei-te o cabelo com dor, mas sempre à procura de uma força qualquer para te passar, tentando-me colocar por detrás de uma fachada qualquer, nem sempre com resultado... ou com o resultado esperado.
E o que isso me fez a mim e a ti.
Porque sonhei agora contigo, com um lenço? Porquê depois de já ter sonhado contigo bem?

14 de agosto de 2011

Beijo

Perdido. É como me sinto às vezes.
E isso faz-me lembrar de outros tempos, não muito distantes, em que apesar de estares doente, apesar de estar contigo e isso não ser fácil nem simples, pela nossa maneira de ser, pela nossa dinâmica, pela nossa conjuntura, pelo esforço que por vezes representava....... apesar de não ser fácil, dizia, eu tinha algo. Tinha uma sensação de pertencer, de estar bem. Tinha muitas vezes a sensação de - "pois mas eu tenho a Ana".
Sempre fui teu. Mesmo quando nos zangávamos. Sempre fui teu e senti que eras minha. Éramos um casal, apesar das diferenças e dificuldades. Éramos um grupo e fazíamos coisas de um grupo. Vivíamos e sentíamos as coisas.
Éramos uma família. Acho que é isso que quero dizer.
E agora não.
E apesar de tentar, de me esforçar por equilibrar, por descontrair e por desligar, sinto que falta algo.
Já não está lá a minha Ana. A minha amante. A minha companheira. O meu suporte e conforto. E isso às vezes desgasta e cansa. Como que se me faltasse uma parte de mim.
Não que viva todos os dias desgastado com a tua ausência. Isso com o tempo mudou. Lembro-me de ti, sim, todos os dias, é provável. Mas não com dor ou sofrimento. Apenas com a mesma sensação que perdura de não conseguir perceber porque teve de ser assim.......
Esta noite senti-me perdido. Sozinho. E embora tenha a tua memória, gostava de por vezes conseguir descansar. E não consigo. É como se uma trave de ferro me caísse em cima todos os dias ao acordar e me limitasse os passos. Me cortasse as ideias. Me chamasse à terra a perguntar... porquê?
Para onde foi tudo. Porquê?
Essa parte, do conforto. Desapareceu.
Ficou contigo, desgastada com o teu sofrimento. E eu que não quero mal a ninguém.... só quero paz. E pelos visto não consigo por mais que tente. Queria perceber. Isso sim gostava, de conseguir perceber.
Não sei se me ouves. Se haverá sobre isso maneira. O que queria era dizer que apesar dos erros estive aqui, e que me lembro do teu sentimento sobre isso. Lembro-me tambem do teu conforto. Do teu colo. Da tua presença e do que de bom isso me fazia.
Beijo.

9 de agosto de 2011

Bichos

Ana.
Ele fala de ti com uma tranquilidade que por vezes me surpreende.
No outro dia, depois de muitas conversas com a tua Mãe e com a tua Irmã, a que ele assistiu, fiquei com uma dúvida sobre o efeito nele, sobre a forma como ele via e sentia o que se falava sobre a Mãe.
De facto falou-se imenso, a maior parte das coisas, num sentido positivo, de uma recordação descontraída e feliz, falámos da tua personalidade, de coisas que dizias, e até da forma como reagirias hoje a coisas que acontecem.
Eu e a tua Irmã ainda nos rimos porque nos lembrámos das tuas reacções. E falámos de facto bastante. Falámos dos bichos por exemplo, como tu querias ter bichos e de um momento para o outro esgotavas a paciência com eles, e como invariavelmente iam ter a casa da tua Mãe que os passava a aturar. Foi assim com o gato, com o cão, com o papagaio, embora esse fosse mesmo da tua Mãe.....
Voltando ao que dizia. Fiquei com um receio do efeito que isso tinha nele.
E falei com ele sobre isso.
E saiu mais uma frase lapidar.
- Não Pai, eu até gosto. Gosto de saber mais coisas sobre a Mãe.

A pior noite

A pior noite não foi a noite em que morreste. Foi a noite em que me mandaste um sms a dizer - sinto que me estou a ir embora, gostava que fosse em casa, podes tratar disso?
Lembro-me como se fosse agora, tinha-te deixado no hospital, tinha ido buscar o rapaz a tempo, ainda antes do ATL fechar. Decidi ir com ele ao Cascais Shopping, só porque sim, só porque era mais longe, mais longo o caminho. Até pode ter havido outra razão mas não me ocorre. Um brinquedo para ele? Uma roupa para o treino? Talvez uma razão assim.....
Ia a caminho quando me mandaste o sms. Recebi-o na curva que sai da auto-estrada e segue pela via rápida. Na altura o novo hospital de Cascais estava a ser construído. Olhava para ele e pensava que seria bom ires lá ter, apesar de tudo e já que tinhas de estar no hospital, que fosse num mais recente, mais moderno.... um raciocino estúpido bem sei, como se fosse melhor estares ali do que com saúde. Agora, pensando bem,  acho que isso era de facto um sintoma. Eu já não acreditava nas tuas melhoras, após tantos meses de hospital, só queria que estivesses num bom. Num melhor que os outros. Ainda hoje (recentemente) quando passo por esse hospital penso que não o conheceste... como se isso fosse mau.... que estupidez, que tristeza de pensamento.
Recebi o sms nessa curva a sair da auto-estrada. Li-o e chorei até ao Cascais Shopping. Devagar a tentar que o rapaz não me visse. e não viu durante muito tempo. Só quando parei não me aguentei. E ele viu. E perguntou. Pai, estás a chorar?
Depois disse-me a frase de que nunca mais me vou esquecer.
- Pai, é por causa da Mãe? Ela não está bem?
- Pai, não faz mal. Tu podes chorar....
Mais tarde, numa noite antes de dormir, ele disse-me que eu nunca mais tinha chorado, que só me tinha visto chorar uma vez. Daquela vez, por causa da saúde da Mamã.

8 de agosto de 2011

Coisas de que gostavas - Abelharuco

Lembro-me de termos visto um abelharuco pela primeira vez no Alentejo. O nosso Alentejo das férias de sonho. Das férias únicas, contigo bem, depois do primeiro round. Quando tudo parecia possível.
Para nós, meninos da cidade, um pássaro assim só existia num documentário de televisão, num país tropical, ou num mundo distante e belo, longe do nosso.
Nesse verão quando o vimos, ficámos parados dentro do carro a olhar. Falámos imenso desse pássaro. Desse como do resto dos bichos que voavam, rastejavam, e espreitavam pela janela do nosso quarto :-)
Beijo. Sapo.

6 de agosto de 2011

Escrever

Ana
Uma das razões porque escrevia, furiosamente, depois de partires, era por um sentimento de medo. Medo de perder a memória das coisas que ele dizia, medo de perder a memória daquele momento, medo de perder, com o passar do tempo, o sentimento de respeito, consideração e dever, que sentia para com ele e para contigo.
É talvez um excesso isto tudo, mas também não é fácil explicar.
Era também uma forma de fazer qualquer coisa. Qualquer coisa com sentido perante uma situação que eu não conseguia perceber.
Escrevia todas as noites, deitado na cama. Puxava pela memória e escrevia alguma coisa do passado, algum sentimento mais forte daquele dia, alguma frase, alguma situação que me tivesse provocado uma reacção silenciosa cá dentro. Escrevia uma das últimas frases dele. Escrevia algo que ele me tinha dito ao longo do dia, como daquela vez que lhe perguntei o que tinha sido o almoço e ele respondeu -- foram almôndegas desfazidas.....
Depois foram surgindo outros stresses outras pressões outros sentimentos, e o escrever dirigiu-se para outro lado. Não foi fácil, mas talvez tivesse de ser assim. Ficou talvez cá essa sensação de não estar completo, terminado. De não ter cumprido com o que devia. E talvez também por isso, faz sentido escrever agora aqui ao fim de tanto tempo.
Escrever era assim uma espécie de companhia e de desabafo, e sobretudo, como no passado, no meu passado, uma forma de dar organização às coisas. Uma forma de sistematizar, de organizar, de alinhar as ideias. Nunca em absoluto, nunca perfeito, mas muito melhor desta forma, escrita, do que na desarrumação e turbilhão de ideias dentro da cabeça. Sempre sobrepostas por outras coisas, outras ideias, outras sensações e avaliações. Uma cabeça sempre inconstante, sempre hesitante, sempre em dúvida sobre si.
Escrever era assim uma forma de encontrar alguma paz.
E funcionava, como no passado, no meu passado.
Talvez também por isso me sabe bem vir aqui escrever. Para ti, para ele, para mim, para encontrar alguma paz.
Beijo.

Also

"Although the world is full of suffering, it is full also of the overcoming of it."
Helen Keller

5 de agosto de 2011

Coisas de que gostarias

Rua

Ana
Hoje, por coincidência e oportunidade sozinho, passei na nossa rua, na rua da nossa antiga casa.
Lembrei-me, como é natural, de ti. Lembrei-me dos muitos dias de angústia que passei, quando saía de casa e procurava lidar com deixar-te sozinha a dormir, na ressaca da quimioterapia.
Lembrei-me das múltiplas fases, das diversas vezes, dos 12 anos que passaram desde a primeira vez.
Voltei aquele sentimento de que podia ter feito melhor, mas também ao sentimento de que fiz como sabia, podia e conseguia.
Lembrei-me em particular de dois cenários. Sair de casa com ele bebé, levá-lo ao infantário, cuidar dele à noite e de manhã, contigo deitada na cama dias seguidos pelo desgaste da químio, derrotada, inchada, triste, cansada, desgastada e sozinha.
Lembrei-me também da fase em que saía de casa para passear o cão, o nosso louco e esgaseado cão, com uma energia monstra, e que acabou por te tirar toda a paciência.... coitado veio num mau momento.....
Lembrei-me de o ir passear e sentir pequenos momentos de paz, pequenos momentos em que pensava - Isto podia ser pior, isto podia ser o fim do mundo, podia ser a bebé doente também, podia ser mais grave, mais feio........ mas mesmo assim é tão mau, tão triste, tão sozinho......
Voltava para casa e encontrava-te invariavelmente a 200, a cozinhar, a fazer coisas, a opinar, a decidir, a combinar fenómenos que iam acontecer :-) Amei, sempre amei, a tua energia. Eras uma mulher de ferro. É assim que te recordo.
Beijo Ana.
Sapo.

29 de julho de 2011

Happiness II

A propósito disto - Happiness - encontrei uma entrada interessante de um filósofo Americano, John Perry, e os seus discursos de recepção aos caloiros em Stanford;
- Happiness is the product of the pursuit of your goals and not a reasonable goal in and of itself. 
Excelente... e tem tudo que ver com a outra entrada.


Já agora, as frases;
Explaining that he had lived his life and organized his talk around four issues, Perry ticked them off to accompanying laughter:
  • Life is what happens while you're making other plans. 
  • What you care about determines who you are.
  • Happiness is the product of the pursuit of your goals and not a reasonable goal in and of itself. 
  • Size Matters
Esta última, só mesmo percebendo a sua história de vida, e os condicionalismos que lhe provocaram.... 
Fizeram-me pensar, em particular esta última, no que somos na vida, pelo que de bom, e se calhar sobretudo também, pelo que de mau nos acontece.

27 de julho de 2011

Pensamento Cruzado

Ontem, a ouvir com ele no carro um episódio do Pensamento Cruzado, na TSF, muito interessante para mim mas muito complexo para ele, pelo tema e sobretudo pela linguagem como é óbvio.....

Quando o programa, curto, acaba, diz ele....
- Patata, patata, nanana..... não percebi nada :-)

20 de julho de 2011

FNAC

- Pai. Se te saísse o euromilhões o que fazias ?
   - Não sei. Olha, fazia o que me apetecesse.
- Eu comprava a FNAC!
   - A sério? Para quê, para seres o dono? Já viste o trabalhão que isso dava?
- Não Pai. Comprava a FNAC e depois ia lá de vez em quando e tirava um jogo.... eram todos meus....

17 de julho de 2011

Porquê agora?

Ontem pela primeira vez questionei profundamente este sistema.
Porquê? E para quê?
Porquê agora?
Não será nesta altura estranhamente inseguro da minha parte?
Manter algo assim é manter uma espécie de memória no ar, constante. Será isso útil ao fim deste tempo? Não deveria este ser o tempo de esquecer de não mais falar? Não deveria ser o tempo de encerrar um registo como este e partir para outros registos?
Não devia ser este um momento de fim, de fecho, de encerramento, e esta ser uma forma de impedir ou prolongar agonizadamente esse fim?
No fundo servirá para quê? Não será mais danoso do que construtivo?

16 de julho de 2011

Coisas de que gostarias

Gosto. Tem um ar esperto.....  

14 de julho de 2011

Sorrir

Tenho uma colega que me repete frequentemente; - Tens de sorrir.....

Fico sempre dividido com estes sentimentos. Sorrir porquê, que razões existem? Se procurar fundo não há razões nenhumas para sorrir. Há aliás razões para nunca mais sorrir.
Mas por outro lado....
Porque não sorrir, porque não esquecer? Porque não fazer de conta que tudo o que passou, por duro, por triste que seja, por impossível que seja, não nos impede efectivamente de sorrir. Não tapa a luz que todos os dias o sol descobre.

Textos antigos - 26/03/2009

Os dois a ver o filme Flipper.

- Pai, a Mamã também já fez aquilo!
- Pois foi, no Algarve com dois golfinhos…….. segurou na barbatana de cada um……
- Pois foi…. e depois foi assim….. Yeaaaaaahhhhhhhh !!!

13 de julho de 2011

Nada

Tenho passado por momentos difíceis no trabalho. Muita pressão, muito desgaste, alguma incorrecção, prepotência e arrogância, e sobretudo uma dificuldade em me identificar com um estilo e uma forma de trabalhar que não é a minha.
Um ambiente muito cansativo, que dá origem a muita revolta, irritação e desconforto.
Um ambiente que às tantas me faz questionar o meu próprio valor, o meu próprio sentido, a minha coragem, a minha determinação, o meu lugar..........................
Hoje de novo.
Mas hoje, lembrei-me de algo que por vezes me passava pela cabeça. Talvez sem na altura me dizer o que diz agora, sem que eu percebesse o que eu queria dizer a mim próprio.
Tudo o que me acontece de desagradável, de revoltante, de enervante, não é nada.
Não sou mais que ninguém.
Não sou ninguém.
Mas há uma coisa que eu sei. Eu sei que olhei para ti quando tu estavas a morrer. Sei que olhei para o teu rosto desgastado pelo sofrimento, para o teu olho cego, para a tua boca semi-aberta de cansaço, de uma respiração curta e ofegante, sei que me lembro das tuas frases, do teu último pedido. O teu último pedido que ainda hoje é amargo e triste...
Sei o que chorei por isso tudo. O que sofri por isso tudo.
E nada. Absolutamente nada do que me fazem ou podem fazer agora no trabalho, se compara alguma vez com isso. O que me fazem não é nada. Nada.

Coisas de que gostarias


12 de julho de 2011

Descansar

- Pai tenho muitas saudades da Mamã. 
- Eu sei querido. Eu também.
- Vamos ter de aguentar, até ao resto das nossas vidas.....
- Sim. Sabes, não podemos fazer nada sobre isso. Temos de pensar nas coisas boas que fizemos, e nos momentos bons que vivemos.
- Pois é.
- Temos de pensar que a Mamã está num sitio bom e que está bem.
- Sim Pai, ela está a descansar.

7 de julho de 2011

Textos antigos - Equilíbrio - 03/02/2009

03/02/2009
Equilíbrio

Quero simultaneamente tudo e nada. Quero atenção e sossego, quero solidão e companhia. Quero também sentir que estou por dentro e que pertenço, mas ao mesmo tempo ver-me de fora, para conseguir avaliar-me.
Preciso de me focar nos outros e não em mim. Mas é difícil, não consigo.
Hoje consegui traçar uma linha. Uma linha difícil mas que tem de ser traçada. Que divide o meu desejo e o que sinto. Que separa o que queria do que consigo ter.
Parando com as dificuldades de expressão, e com o medo.
Queria colo, e essa é a melhor expressão possível. E também a mais correcta. Mas para ter um pouco disso tenho de abrir mão de tanto. Não consigo estar com ninguém como queria, com sossego e companhia. Estou com alguém e com mais 5, 6, 20, uma centena, montes de gente. E isso para mim é uma violência. Não quero mais essa violência. A maioria dessas pessoas não me diz nada. São pessoas simpáticas sem dúvida, mas não me são nada, nem sei bem o que fazem aqui, nem o que faziam no funeral na Ana.
Mas estiveram lá. Para quê? E porquê?
Eu não as quero. Peço-lhes desculpa mas não as quero, não as desejo. Não tenho nada contra elas, só que não me dão nada de bom, e não têm sequer culpa disso.

6 de julho de 2011

Coragem

Hoje morreu a Maria José Nogueira Pinto. Morreu com um cancro.
Gostava imenso dela. Tu também. Lembro-me de a vermos falar e gostarmos da sua convicção, da determinação, da graça natural com que falava, com o rosto marcado, afirmando-se tranquila. Mesmo com a distância política, mesmo com a natural desconfiança, e mesmo com o cansaço com que ouvíamos os políticos falar.

Recordo-me de uma frase dela, de há muitos anos, que me lembro perfeitamente de comentar e discutir contigo.
Era sobre o poder. Dizia a Maria José algo assim - que não tinha medo do poder, que gostava do poder, no sentido em que o poder lhe permitia fazer as coisas acontecer, lhe permitia fazer coisas pelos outros, fazer bem - algo assim por estas linhas. Lembro-me dessa frase e de como gostei de a ouvir, e simultaneamente de como me fez sentir pequeno.

Morreu de cancro. Elogiaram-se muitos dos atributos da Maria José, hoje nos jornais. Mas um em particular me fez pensar. A coragem. Morreu de cancro mas trabalhou até ao fim, sem dizer que não, ou que desistia. Morreu de cancro mas esforçou-se por estar presente, por estar lá nas suas funções até não poder mais.
E isso fez-me lembrar de ti.
Morreu com 59 anos, tu morreste com 41.
Morreste e estavas a trabalhar na semana anterior. Quando morreste a empresa onde trabalhavas elogiou o facto de te manteres em funções até ao limite das tuas forças.
Morreste mas lidaste com tudo com coragem. A mesma de que estava munida a Maria José. Tu morreste Ana, e tinhas a mesma fibra desta senhora. E essas coisas que li sobre ela, fizeram-me pensar nessa tua coragem, nessa tua determinação, e mesmo na forma como encaraste a morte e o cancro, que acabou por levar as duas.

É sereno este meu sentimento, mas é simultaneamente difícil de expressar por completo. Gostava que estivesses aqui para falarmos sobre isso. Penso que elogiarias de facto a determinação e a coragem. A mesma determinação e coragem, que eu elogio em ti.

5 de julho de 2011

Coisas de que gostavas - Sintra

Gostavas de Sintra. Não tenho dúvidas disso. 
Mas não tenho tanta certeza se gostavas do Palácio. Achavas, lembro, que era um pouco estrambólico, um pouco louco, mas simultaneamente fascinante. As cores, o formato, o sítio. O sítio, esse sim, fascinante.
Fizemos uma escalada na Serra, memorável :-). Uma coisa que tenho de descrever aqui com tempo.
Beijo. Sapo.

3 de julho de 2011

Dor de cabeça

Ana. Tenho uma dor de cabeça que me persegue há três dias.
Simultaneamente tenho-me lembrado de ti em inúmeras ocasiões.
Associo as duas coisas que não têm ligação nenhuma - e se estivesses aqui já me estavas a dizer - Obrigadinho!!!!
Mas o que quero dizer com isto é que algo se passa quando estou mais cansado mais tenso mais nervoso (e sei quais as razões para isso), na minha cabeça sinto voltar frequentemente uma frase tua, um olhar teu, uma letra de uma música, uma conversa, mesmo que menos boa.... e talvez por isso, pelo contexto, por vezes vêm à cabeça conversas menos boas.
A propósito. Um exemplo de uma música. The Gift - Fácil de entender.
Sempre que a ouvíamos, dizias que este verso era para mim. Dizias que era o que sentias. E acredito, sinceramente;
[...] Obrigado por saberes cuidar de mim, tratar de mim
Olhar para mim, escutar quem eu sou
E se ao menos tudo fosse igual a ti 
[...]
Mais tarde, li esta música de uma forma completamente diferente, como uma despedida de mim para ti. Nunca te disse, por razões óbvias, mas depois de partires mais sentido fez ainda, como um todo coerente.
[...] Despedir-me de ti
Adeus um dia voltarei a ser feliz
Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor
Não sei o que é sentir [...]
Que dor de cabeça.
Beijo. Sapo.

Coisas de que gostarias

1 de julho de 2011

Textos antigos - Ratos de orelhas gigantes - 15/02/2009

(Mais um texto antigo. De tempos a tempos esta frase volta à minha cabeça).


15/02/2009
Ratos de orelhas gigantes

A lenda de Desperaux
……. e o Rei descobriu outros sentimentos mais fortes do que a dor.

29 de junho de 2011

Coisas de que gostarias

Morte

Ana.
Hoje falou-se da morte à mesa de almoço.
Falou-se que a morte nos transcende, e das experiências que vimos os outros viver.
Eu não falei. Falou-se, mas eu não falei.
Apenas falei para dentro e pensei em ti, nos meses que sofreste (sofreste anos, mas nos últimos meses sofreste seriamente, desmesuradamente, intensamente e sem descanso), na última noite em que te vi com vida, na forma como a noticia me foi dada, no sentimento de solidão que tomou conta de mim, da sensação de anestesia, de que nada estava a ser feito porque nada podia ser feito, que tudo estava agora certo estando tudo errado, que não ia sair dali contigo, que nunca mais te ia ver, que nunca mas te ia poder consolar, apoiar, acompanhar.
Lembrei-me de sentir isso tudo, ouvindo os outros falar da morte de um actor jovem, que morreu num acidente de automóvel esta semana, da forma como viram outras pessoas reagir à noticia da morte dos seus queridos e próximos, da inevitabilidade, incontornável, da morte.
Fez-me sentir mal este sentimento. Como que senti de novo o desrespeito pela tua memória. É um sentimento estúpido bem sei, mas por vezes sinto um aperto, como que um desgaste, porque ouço falar e penso..... eles nem imaginam o que estão a dizer, eles nem imaginam o que eu sei e vivi. E o que me faz sentir mal, é essa sensação de que a responsabilidade de eles não saberem é minha. Percebes? Faz-me pensar se estou a viver bem a minha vida. Am I living it right?
Calei-me.... a tempo. Não o tempo todo, mas calei-me. Como que a pensar que não queria estar ali, não queria que ninguém se lembrasse de mim. Calei-me e senti isso tudo e lutei contra isso. Mas não esqueci. Nem deixei de sentir. Am I living it right?
Beijo
Sapo

26 de junho de 2011

Praia

Ana.
Hoje lembrei-me outra vez de ti através dele.
Lembrei-me de uma foto dele na praia. Sentado na toalha com os teus óculos escuros a segurar uma tartaruga de lego na mão. Todo ele gorducho. Todo ele redondinho, das mãos às bochechas.
Hoje voltámos à mesma praia.
Ele está gorducho na mesma :-) mas com corpo de rapaz. Está a crescer. Por vezes meio bebé, por vezes rapaz. Hoje pediu-me um balde para brincar na areia... eu disse... - trazemos para a próxima. Mais tarde fiquei a pensar, um balde? Um rapaz de baldinho na praia? Já não tem grande idade para isso...... mas está no meio talvez.... num meio entre bebé e rapaz, entre rapaz e homenzinho....
Voltámos à mesma praia de há uns 10 anos. E voltei a ter pena de não o poderes ver, de ele não saber de ti. Só posso imaginar como gostarias de o ver, e de o ter contigo........ ou não posso, não imagino porque não é possível.
Antes talvez. Que independentemente de tudo - da forma e do contexto, o pudesses ver como querias. A crescer.
Beijo. Sapo.

24 de junho de 2011

Coisas de que gostavas - 5º elemento - Os carros

Uma das cenas de que mais gostavas. Lembro-me que sonhavas com os carros voadores e imaginavas a cidade quando os carros forem assim. Gostavas de conduzir um, dizias :-)
Lembro-me de falares com ele sobre isso e de lhe provocares um fascínio pelos carros que podiam voar... - "Um dia quando fores grande....."

22 de junho de 2011

Coisas de que gostavas - The 5th Element

Ana. Provavelmente o filme da nossa vida.
Concordavas certamente.
E sei que gostavas deste filme de uma forma especial Como eu aliás.....
Beijo. Sapo.

Coisas de que gostavas

Ana
Hoje tive uma epifania.
São coisas raras, há que aproveitar.
Registar as coisas de que gostavas (que eu sei que gostavas) assim como as que provavelmente gostarias (conhecendo-te e sabendo como sentias as coisas).
Isso pareceu-me servir um fim, de que já falei, e por isso, ser útil.
Beijo. Sapo.

21 de junho de 2011

Textos antigos - Need for speed - 16/02/2009

(Encontrei o texto em que falava de me abraçar a alguém do meu tamanho. Mais um texto antigo).


16/02/2009
Need for speed – a necessidade de borrasca (queimada)

Acordo com vontade de me abraçar a alguém do meu tamanho. Não vejo ninguém nem quero ver ninguém. Não tenho ninguém a quem abraçar.
Desenvolvo uma crescente angustia por não falar com ninguém. Porque estou a precisar mas não quero dizer. Porque quero estar com as pessoas mas não as quero massacrar. Porque quero falar, mas só tenho um tema.
Saio de casa. Venho em stress. Choro. Quero chorar, não quero chorar.
Choro porque vejo uma velhinha no passeio e sinto a sua solidão. Porque me lembro da Ana. Choro porque ele precisa da Mãe. Porque o Randy Pausch diz coisas profundas. Porque me recordo da Ana. E de repente já não choro e parece que me sinto mal por não chorar.
Fico num nó cego. Um nó na garganta, ao ponto de ficar seca.
Não falo, não digo nada. A garganta fica seca ao ponto de gostar da sensação que dá.
Não quero estar onde estou, mas quero. Não quer ver ninguém, mas quero. Preciso de falar com alguém, mas não falo.
Depois de repente descolo. Faço um telefonema. Falo de trabalho…. E de repente descolo.
Preocupo-me com outra coisa. Leio qualquer coisa. Falo com alguém sobre um tema qualquer de merda. E descolo.
Acho que por vezes sinto uma necessidade de estar depressed. Preciso de me sentir em baixo, de sentir a morte da Ana. De me lembrar do sofrimento dela. Porque é justo, porque é necessário, porque é a única forma de estar. Não há outra.
A morte da Ana tomou conta de mim e da minha vida. E eu preciso disso, por muito que me custe.

20 de junho de 2011

Saudade

Ana
Tenho saudade.
Hoje essa saudade é tranquila e lenta como uma tarde de verão que se desfaz, sem vento, muito devagar. Mas já foi uma saudade feroz e dolorosa. Cheia de sentimentos antagónicos. Os sentimentos eram muitos, e por vezes agressivos, horríveis, por vezes estranhos, outras vezes claros, mas quase sempre angustiantes.
Hoje a saudade é lenta. Como que me habituei à angústia. Aprendi a viver com ela. Está lá, mas é lenta e fina como uma ligeira dor.
Tenho saudade. De ti. E sobretudo de nós.
Do conforto de estarmos juntos e podermos decidir as coisas em comum. Com o tempo lá me fui habituando a viver de forma diferente. Mas não ter ninguém a quem recorrer num momento de dúvida tardia, não foi fácil. O assumir da liderança em tudo. A necessidade de fazer o que nunca tinha feito.
Lembro de olhar vezes sem conta para os papeis, de sofrer a olhar para eles, de pensar como fazer, por onde começar. Lembro-me de olhar novamente, e de voltar a eles mais tarde, como que à procura de uma segurança.
Lembro-me de um dia ter escrito que tinha saudades de me abraçar a uma pessoa do meu tamanho. De facto ele não conseguia esse papel, nem lho podia pedir. Com o tempo lá me fui habituando.
Mas lembro-me de ti, e isso faz-me saudades. Tranquilas agora. Mas nem sempre foi assim como já disse.
Também saudades das tardes de domingo no campo, no calor, na tranquilidade. a ver-te dormitar com ele no colo, bebé. Ver-te cuidar dele, e dizeres-me que o querias ver crescer.
Lembro-me muitas vezes dessa frase.
- Gostava de o ver crescer.
Lembro-me de ouvir isso e de te reconfortar. De te dizer o que podia e sabia. E de tentar acreditar que não ias morrer assim. Ainda hoje não acredito que morreste assim. Foi tanto tempo e foi tão rápido ao mesmo tempo.
Para onde foi isso? O que aconteceu a esse sentimento e vontade de o ver crescer? Como se pode isso perder, de tão genuíno?
Não percebo por mais que tente.
Saudade. Beijo. Sapo.