Uma das tuas mais importantes memórias, que ainda não constava aqui. Pelo menos neste formato.
Tinhas uma paixão pelos golfinhos.
Na minha viagem a Cabo Verde, trouxe-te um golfinho de pedra, preto e pequeno, que usavas num colar à volta do pescoço. Tínhamos trinta e poucos anos, e éramos uns palermas adolescentes.
Uma vez na praia, nas conversas de namorados, disseste-me que gostavas de mim como de um golfinho. Eu percebi que gostavas de mim como de um copo de vinho. Chorámos a rir durante horas com essa palermice. Mesmo muitos anos mais tarde, a frase servia para nos rirmos de nós.
Eram os nossos melhores momentos, quando ainda nada de mau se tinha passado, o tempo era nosso, e embora com dúvidas e angústias, vivíamos ao sabor do momento, com paixão.
Foram os nosso melhores momentos, eu diria.
Anos mais tarde disseste que nunca tínhamos tido tempo para namorar. Em parte é verdade, esse foi o verão, o único verão, em que namorámos de facto sem a pressão das doenças e o stress e dor dos tratamentos e efeitos secundários. Mas sempre achei que namorámos de facto. No entanto essa tua frase marcou a nossa relação, marcou-me a mim, e repeti-a muitas vezes.
Sempre adorei a forma e a lucidez como vias essas coisas que a mim me escapavam, por natureza, por feitio. Surpreendeste-me com essa frase, e com outras que vou deixando aqui. Beijo.
